Viva Zapatero!

março 2, 2009

Quando eleito, Silvio Berlusconi representava uma esperança para um país afundado em escândalos e corrupção. Nós brasileiros sabemos como é isso, sabemos que a esperança é um ótimo argumento para a propaganda política, e sabemos que depois de alguns anos de governo, as fantasias caem e política volta a ser do jeito que era antes.

Pois bem, em pouco tempo as investigações sobre a origem do dinheiro das campanhas de Berlusconi e sobre seus diversos acordos “debaixo do pano” começaram a vir à tona. Mas antes que a Itália percebesse, ele montou um esquema midiático que não deixou essas informações repercutirem. Em pouco tempo, o parlamento estava trabalhando para aprovar uma série de leis que garantiriam seus interesses: imunidade jurídica, fim de um segundo turno nas eleições, e até mesmo a chamada “ lei Gaspari” – que garante a Berlusconi a possibilidade de ter o monopólio televisivo, e até expandí-lo.

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Sabrina Guzzanti é uma comediante italiana que em 2003 começou um programa satírico na TV RAI chamado “RAIOT”- uma espécie de “Casseta e Planeta”, apresentando suas imitações e seus personagens, com textos humorísticos mais densos, mais críticos.

Sabrina aproveitou a situação e dedicou o primeiro episódio do programa ao debate sobre a lei Gaspari. O programa não passou da primeira edição.

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Mesmo que a censura seja hoje contra o artigo 21 da Constituição Italiana, o programa foi tirado do ar sem muitas explicações. Alguns alegaram que o programa era impróprio para o horário. Outros, que aquilo era propaganda política. Outros, que não tinha graça. (Eu discordo, e acho que as imitações e personagens de Guzzanti foram as coisas que mais me fizeram rir na mídia por aqui. Tirando os depoimentos do Berlusca, que são sempre uma comédia…).

O fato é que a TV italiana está cada vez mais cheia de culinária, de programas de palco, de discussões intermináveis sobre temas sensacionalistas. Enquanto eu estava lá, as pessoas só sabiam falar sobre o fiho que esfaqueou a mãe, sobre pasta ao forno e sobre a “crise da mozzarella”.

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Se você se interessa pelo assunto e quer dar algumas boas risadas, procure pelo documentário que Sabina Guzzanti fez sobre o fim de seu programa na RAI: “Viva Zapatero!”. Dá pra entender um pouco mais sobre o atual contexto de um país onde os jornais ainda são subsidiados pelo governo, onde a televisão está dividida entre a RAI, a TV pública, e a MediaSet, de Berlusconi – também dono da principal editora do país. Enfim, dá pra entender um pouco mais sobre um país onde, hoje, os comunicadores vivem com medo de dizerem o que querem. Termino o post com as palavras com que Sabina abre o primeiro e único episódio de seu programa, entrando no palco depois de já ter sido ameaçada de ser tirada do ar uma vez.

“Vocês sabiam que a Itália é o 53º país numa numa lista mundial de liberdade de informação? 53º numa lista de 166 países. Não é uma bela posição. Não é nada bela. Vocês já ouviram falar sobre isso na televisão? Alguem já disse isso no telejornal? Acho que não, né? Bom, acho que se tivessem falado, não estariámos no 53º lugar…”



“Trilha Sonora da Itália 2008”

fevereiro 6, 2009

Enfim tenho meus cantores e bandas favoritas no país! Nada de Laura Pausini, Eros Ramazzotti ou o fenômeno POP italiano Vasco Rossi. Esses aqui eu fui colhendo aqui e alí e consegui (em partes) deixar de lado o esteriótipo de que música italiana é sempre uma melação-para-cornos.

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Um deles eu já falei, o Jovanotti. E na mesma linha dele, tem o Zucchero, um cantor que está sempre fazendo parcerias com outros cantores italianos e internacionais, regravando sucessos mais antigos e misturando tudo, numa pegada sempre tranquila, pop, um pouco Blues, cheia de participações especiais pra vender mais e esse esqueminha “Sandy-Jr.” manjado…

(nota: isso pra mim é playback! Que feio hein…)

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Tem também umas bandas muito boas de rock. A mais antiga das bandas que conheci aqui foi o Litfiba, banda dos anos 80 com som meio wave. O cantor, Piero Pelú, continua cantando até hoje. Me parece que as pessoas gostam bastante dele aqui. Eu acho ele estranho e feio cantando. Mas enfim, a época de ouro do Litfiba já passou.

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Uma outra banda que me agradou bastante pelo rock mais tranquilo foi o Marlene Kuntz, que estourou no início dos anos 90, mas posso dizer que é praticamente um Los Hermanos italiano.

(Nota: toda banda por aqui tem pelo menos 10 anos de carreira. Aqui eles valorizam mais o percurso do artista que o seu trabalho atual, pelo que me parece… Não tem nada a ver com a Inglaterra, que está sempre dando espaço e lançando bandas novas. Seria uma questão de influência e uso da internet em cada país? Eu acho que sim…)

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E foi em um show da Nike 10k que eu conheci uma banda que me marcou muito pelo som diferente de tudo aquilo que eu costumava ouvir aqui, bem ousado pra uma banda italiana. O Subsonica faz aquilo de misturar rock e música eletrônica, às vezes caindo numa coisa que nos soa meio estranho, mas na maioria com um resultado bem gostoso (tipo essa aqui do comecinho da carreira da banda, há mais de 10 anos atrás…).

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A banda mais recente e uma das melhores que conhecí foi a Negramaro, que surgiu e ganahou notoriedade através de concursos e festivais – e não parou de ganhar prêmios desde o ano de seu primeiro disco, 2003. Os caras são do sul italiano, e pra muitos é, hoje, a melhor banda de rock italiano. Os caras são bons mesmo.

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Aqui na Itália eles valorizam muito também os cantores que compõem suas canções, os “cantautores”, como o Jovanotti e o Luciano Ligabue. Ele é um daqueles que não se limita só às canções belíssimas, mas também é escritor, diretor e pitaqueiro político nas horas vagas. Seu trabalho e envolvimento com a Itália vai além das musiquinhas românticas na voz rouca, e é por isso que coloco o cara no meu TOP musical não só italiano, mas geral. Enfim, tiro o chapéu pra ele. O cara é foda.

(nota: esse é o último post que escrevo sobre a Itália ainda na Itália! Carrego assim que possível no blog, mas daqui alguns dias começo minha viagem pela europa e depois… de volta ao Brasil! Então vou me despedir deixando uma música que ouvi muito aqui no início do ano nas rádios e me lembra meus primeiros momentos no país. Tem uma letra bem forte e crítica em relação ao país, e é toda sentimental, pra acompanhar esse momento de pré-despedida… Aiai, que dor no coração! Europa, aí vou eu!)

(Uma que tocava em balada de rock e a galera pirava de tanto dançar, mas de um cantor desimportante: Viene a ballare a Puglia)

Lugarzinhos de Roma

fevereiro 6, 2009

Depois de meses morando aqui, eis meus achados que nenhum guia turístico vai recomendar.

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Pra comprar muito e gastar pouco

O mais tradicional e famoso mercado de pulgas de Roma acontece todos os domingos de manhã entre a Via Portuense e a Via Ippolito Nievo, o chamado PORTA PORTESE. Hoje é uma mistura de camelô com lojinha indiana de roupas e tecidos com lojinha chinesa de quinquilharias com loja de bicicleta com brechó com Rua José Paulino com feirinha da Benedito Calixto. Os preços são surpreendentemente baratos. Caçando, dá pra achar muita coisa boa por menos de 5 euros.

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Os melhores GELATOS!

A escolha dos Turistas sempre é a sorveteria GIOLITTI. Mas eu acho que o sorvete alí sobrevive mais de publicidade do que de gosto, e os atendentes são um tanto quanto estressados… Então, fico com minha preferida, a gelateria DELLA PALMA, ao norte do Pantheon, na Via Maddalena, com mais de 100 sabores pra escolher (20 tipos só de chocolate!!!) , um melhor que o outro. É como entrar em um universo paralelo, um mundo perfeito… E o sorvete de Chocolate com Amareto é para lamber os beiços e repetir.

E também tem o PALAZZO DEL FREDDO, uma das sorveterias mais antigas da Itália (dizem que é A MAIS antiga. Não sei. Só sei que o Mussolini ia tomar um sorvetinho lá…) que fica na Via Principe Eugenio 65, saindo da Piazza Vitorio e andando uns 200 metros. O sorvete de iogurte branco é maravilhoso, e combinado com outro sorbet, como Frutta del Bosco, fica PERFEITO. É um enorme palácio de fachada branca. Não é “fighetto”, tem pouco ou nenhum turista, mas está sempre cheio de gente.

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As cervejas mais baratas de Roma

Se afastando um pouco do Campo de Fiori, virando à direita na Piazza Farnese, está meu bar favorito em toda a cidade: o bar PERÚ. Um butecão onde a galera fica bebendo na rua e jogando conversa fora, com a Peroni 600ml por 2 euros e o amaro (do capo ou amaretto de Saron) por 2 euros e 50.

E depois de esquentar no Perú, vá em direção à Trastevere. Antes de atravessar a Ponte Sisto, corra pra sorveteria e pegue mais uma Peroni 600ml por 1 euro e 50, pra sentar na escadaria da movimentadíssima Piazza Trilussa e bater um papo antes de escolher o próximo bar, dentre tantos os de Trastevere.

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DOCES, DOCES, DOCES…

A doceria Siciliana CIURI CIURI, que fica paralela à Via Cavour, decendo uma escadinha na altura da Igreja de San Pietro in Vincoli, é uma total PERDIÇÃO. A Cassata siciliana não tem comparação, uma das coisas mais gostosas que eu já comi na vida. E os canolos sicilianos então… São recheados alí na hora com ricota fresca, com ou sem gotas de chocolate e creme de cacao, com pistache triturado nas pontas e açúcar de confeitero por cima… Não dá pra não ir.

E depois da balada, os italianos não passam nem no Black Dog nem na Fábrica dos Salgados como em São Paulo. Eles preferem comer uma bomba de creme ou um croissant de nutella no CORNETTO NOTTE (Via Nomentana 940) –  a larica oficial de Roma, sempre cheia de gente na madrugada de sexta pra sábado. Mas também tem uma cafeteria 24 horas na Piazza Venezia, mais próxima pra quem vai pro Campo di Fiori ou Trastevere: o “Castellino al Palio Bianco”. As tortinhas de frutas são as melhores.

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APERITIVOS

Os melhores aperitivos que visitei em Roma podem até se comparar em qualidade com os do Norte (só não são tão baratos). Um deles está no Corso Vitorio Emanuele, antes de entrar no Campo di Fiori, ao lado do Museo Baroco. Se chama IL PRIMO: 5 euros a cerveja a spina, 8 euros um coquetel. Mas você pode comer à vontade. Enroladinhos de beringela e presunto, bruschetas, salada de arroz, salada de pasta, franguinho assado picante, arancinis… Vale por um jantar e é um ótimo ponto de partida pra uma noite de bebedeira.

E tem também o famoso POMPI, o rei do Tiramissù! Fica na Via Albalunga 11, ao lado da Praça Rei de Roma. Além do dito “melhor Tiramissù de Roma” entre 18h30 e 21h dá pra aproveitar o abundante aperitivo de diversas pastas, bolinhos, carciofinni, wurstel e mozzarellas. Também não é nem um pouco turístico, e é ponto de encontro dos romanos antes de ir pra balada.

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E MAIS COISA PRA COMER…

..sem gastar muito, claro! :)… Um lugarzinho nem um pouco turístico, uma portinha que fica na Via Palermo perto do número trinta e alguma coisa, onde o pessoal que trabalha passa pra almoçar. Se chama “QUA SE MAGNA DA CONSTANTINO”, nome romanaccio pra um lugarzinho bem romano também. Na parede tem umas frases escritas em romanaccio, que nem eu entendo… Os paninos (sanduíches) são feitos na hora e custam pouquíssimo. Mas o melhor está no “Prato qua se magna”, que inclui uma pasta ou insalata de arroz que + um misto de folhas, mozzarella, azeitonas, beringela na grelha, atum e a maravilhosa alcachofra romana. Se come muito bem.

E o restaurante mais gostoso em que já comi aqui, muito famoso entre os romanos, é o Panattoni (Viale Trastevere 53-57), ou  l’OBITORIO, como todos o chamam – porque as mesas são compridas e  feitas de mármore branco… Enfim, não é um posto “fighetto” mas é uma instituição para os romanos. Se prepare pra esperar um bom tempo por um lugar, e talvez ficar ao lado de outras pessoas na mesa. Mas tudo vale a pena pela maravilhosa pizza de massa fina e crocante, pela flor de abóbara empanada recheada de mozzarella e alice (uma sutileza sem descrição… aiai…), ou pelo supplí “al telefono” (porque você morde o bolinho feito de arroz e tomate e puxa esticando o queijo como um fio de telefone).

Mas se você quer comer comida italiana como nunca comeu na vida, pergunte como ir pra cidade vizinha de Roma, Ariccia, e se delicie nos seus FRASQUETTES, os típicos restaurantes da região dos castelos Romanos. São todos um ao lado do outro e extremamente famosos. Lugar certo para os almoços das famílias romanas nos fim-de-semana, e mais certo ainda para o jantar dos jovens nas sextas e sábados. Peça por um misto de entrada (com mozzarella, azeitonas frescas, salaminhos diversos, presunto parma, carne de porco assada, queijo temperado, pão italiano…), mais uma pasta do dia e muito vinho da região.

Bom, têm muitas outras pizzarias al taglio (quadradas, por corte) por onde sempre passo. Uma pizzaria a taglio maravihosa fica quase na frente do “Qua se Magna”, que eu falei um pouco a cima, administrada por uma família muito simpática e com uma pizza explêndida (os sabores de funghi a 4 formaggi e amatriciana, com bacon, tomate e parmigigano, são os melhores). A Pizzeria del Secolo, na Via Vicenza, também sempre me rendeu ótimas experiências…

E eu fui ver o Papa…

novembro 3, 2008

Não que eu estivesse muito empolgado com a idéia ou fizesse questão. Mas morar em Roma por 1 ano sem ver o Papa é como morar no Rio sem ser assaltado ou morar em São Paulo e não somar pelo menos 24 horas parado no trânsito. Então eu fui.

Um mooonte de gente. De todo o mundo. Era uma mistura de “cena de filme em que povos primitivos fazem rituais para a chegada de um deus” e um show de rock.

Telões, aparelhagem de som ultra-moderna, seguranças, bandeiras, cartazes, famílias de todos os tipos (menos as modernas, se é que vocês me entendem…), pessoas tocando instrumentos estranhos e vestidas com roupas estranhas típicas de seus países estranhos de meia dúzia de habitantes… uma grande zona na Praça São Pedro.

Eu achava que o Papa ia aparecer na janela da Basílica de São Pedro. Mas não, quando ouvi a galera gritando, pela primeira vez, era porque tinham extendido um tapete vermelho pra fora de uma janelinha lá longe, num prédio que fica já dentro dos muros do Vaticano, onde ele apareceria.

São momentos de espera com muita ansiedade e tensão no ar… Mas de repente, tcha-nam! Eis que o Papa aparece na sua janelinha-longínqua. E a galera vai ao delííírio! Os homens choram, as velhinhas desmaiam, as crianças ficam observando as pombas e reclamando de fome…

Primeiro ele faz um apelo geral. Sempre mete o dedo em alguma coisa da política internacional (opinião só ouvida pela Itália). Depois, reza com todo mundo junto. Foi muito interessante, porque cada um rezava na sua língua e mesmo assim parecia que todos diziam as mesmas palavras. Nanananaam, nanananaaaam, nanananaaa-aaaaannn…. aaaaaaaameeee-eeeeemmm…

Depois, o momento mais esperados por todos: o Papa cumprimenta a multidão em diversas línguas. E quando ele fala na sua língua, a idéia é fazer como se estivesse na platéia do Sílvio Santos e ele dissesse o nome da sua caravana:

Os brasileiros chacoalhavam a bandeira, e choravam, e gritavam… Afinal, era a primeira palavra que saia da boca do Papa que eles estavam entendendo desde que ele tinha começado a falar.

Aí ele vai embora e as pessoas saem caminhando pela Rua da Conciliação, uma rua contruída pelo fascismo para ressaltar a visão da faraônica Basília de São Pedro, enquanto as centenas de turistas pagam caríssimo por terços com imagens de igrejas romanas e fotos do Papa.

O que é um pontinho branco reluzente lá longe, pra quem todos olham? É um PapaStar! Rá!

O que é um pontinho branco reluzente lá longe, pra quem todos olham? É um PapaStar! Rá!

Muitas, muitas, muitas pessoas...

Muitas, muitas, muitas pessoas...

Programão de domingo da feliz familia croata.

Programão de domingo da feliz família croata.

PAPArazzis? Rá!

PAPArazzis? Rá!

133: La riforma Gelmini

novembro 3, 2008

A Itália é um país de conservadores. A Itália definitivamente não é um Estado laico. A Itália reelegeu (de novo), agora em 2008, um cara que tem descarados acordos com a máfia, denúncias e denúncias de corrupção e apoio de partidos de extrema-direita (leia “fascistas”). Dono da Fininvest, do Império MediaSet, terceiro homem mais rico do país.

Era óbvio que muito mais merda estava por vir com esse governo, mas não imaginei que ousariam atingir tão descaradamente a educação.

As horas de estudo semanais das crianças vão cair quase pela metade. Um monte de professores será simplesmente chutado pra rua, sem esperanças de conseguir um novo emprego. Para o ensino fundamental, o retorno da figura do “professor único” (responsável por lecionar todas as matérias) com um só material didático. E o sistema de escolha desses professores não está claro para ninguém: duvido que seja totalmente meritocrático.

Notas de comportamento com o mesmo peso e importância das outras notas. E a noção italiana de comportamento está muito mais próxima da “submissão” do que da nossa noção moderninha de “aluno participativo e interessado”.

(Estavam querendo, inclusive, criar salas separadas para os estudantes estrangeiros, que “não tem um conhecimento mínimo necessário da língua italiana.” Parece que essa proposta não foi avante. Pelo menos. Ufa. Mas que tipo de governo chega ao menos a COGITAR isso?)

E as medidas específicas para os cortes nas Universidades serão evidenciadas em breve. Provavelmente, incluindo fundações privadas nas universidades públicas, despedindo professores, aumentando a taxa anual de inscrição dos alunos, etc. E, é claro, cortando drasticamente a verba para pesquisas.

Faculdades como a de Física estão paralisadas, em greve, ocupadas, etc etc etc… – afinal, quem se forma alí ou vira professor ou vira pesquisador. Ou seja, ta ferrado de qualquer forma.

A minha universidade, a principal de Roma, está pra ser paralisada. Alguns prédios já foram ocupados. Mas não sei onde isso vai dar, porque aqui ninguém na mídia vai querer ouví-los. Aqueles que o faziam já foram “excomungados” pelo Berlusca há muito tempo.

Particularmente, eu sou apaixonado por esse lugar, por esses prédios, por toda a história, pela cultura, pelas pessoas, pela comida, pela língua, pelos museus, pelos quadrinhos, pela música… mas como dizem meus amigos italianos: “sendo governado assim, QUEM QUER FICAR AQUI?” Os grandes jornalistas, os acadêmicos, artistas… o que fazem? Vão embora! Tá todo mundo planejando a viagem pra Londres, Madrid…

E mesmo com a mídia totalmente na mão do governo (pra quem não sabe: Na TV, a RAI é estatal e a MediaSet é do Berlusconi, enquanto todos os jornais impressos são subsidiados pelo governo) não teve como não escapar algumas “notícias-contra”. Não deu outra, o Berlusconi ameaçou publicamente os editores e diretores dos telejornais.

E embora aqui o povo seja bem alienado, o número de manifestações vem sendo ABSURDO. Como todas se reúnem numa praça que fica do lado de onde estou morando, dá pra ver que dessa vez o negócio é bem sério. Hoje em Roma, divulgaram que no total haviam cerca de 800.000 pessoas manifestando nas ruas (muuuuita gente pros padrões da cidade – quase 1/3 da população da Roma metropolitana). Mas ouvi muita gente alí dizer que tinha mais gente, que o número divulgado era baixo, que eles estavam batendo a casa do 1 milhão.

(É interessante ver até os colégios parando, e estudantes de 15 anos de idade passando os sábados nas ruas. Pra um moleque de 15 anos na Itália sair pra protestar… ta foda! Eles vão com um milk-shake do Mc’Donalds numa mão e óculos Dolce&Gabanna no rosto… mas vão, porque essa manifestação é bem maior do que um simples posicionamento político.)

Um amigo meu italiano que faz Ciências Políticas aqui, me fala sempre mais ou menos assim:

“Quando nós pegamos um livro pra estudar o levante dos regimes totalitários, principalmente os mais modernos, observamos que as mudanças são sempre sutis e seguem os mesmos passos. Pegamos essa lista de passos e fomos ‘ticando’ com base no que vem acontecendo na Itália: Figura carismática que se mantém no poder através da mudança das leis anteriores, feito… Censura, controle dos meios de comunicação, feito… Apelo à família, aos antigos valores, à moral, feito… Investimento nas forças militares e na sua atuação nas ruas, feito… Restrição e controle do sistema educacional, feito… Pois é, se continuarmos assim, estamos a poucos passos de uma coisa bem maior e ninguém percebeu isso…”

Torço muito pra essa lei reforçar a esquerda, pra que talvez nas próximas eleições alguma mudança aconteça.
Dói ver esse país imerso nesse tipo contexto político. Uma coisa é ser um país conservador, outra coisa é caminhar pra trás.

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Esposições de Roma

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Exposições de Roma

Giuda ballerino!

outubro 31, 2008

Esses dias atrás senti saudades de ler um quadrinho e comprei um X-Men qualquer na banca. Não entendi nada da história. O Dente-de-Sabre é filho do Wolverine, o Colosso morreu (ou não), a Tempestade tá louquinha, não dá pra entender se a Jean morreu ou acabou de nascer pela centésima nona vez… Os uniformes estão diferentes denovo, e eles ainda contam só um pedacinho de uma história na revistinha, que só vai continuar daqui há 2 meses. Fiquei puto. Joguei dinheiro fora.

Disse isso pra Elena, e ela retrucou: “mas por que então você não compra Dylan Dog? Não custa ‘uma lira’ e é bem mais legal”. Minha primeira pergunta, claro, foi: “mas qual é o poder do Dylan Dog?”. E ela: “Ele é inteligente e com um humor bem sarcástico”.

E depois da primeira revista com as histórias do cético detetive do sobrenatural, não consegui mais parar. As histórias são bem fechadas, sempre com um enredo bem traçado, links visuais, surpresas, personagens marcantes, lógica policial…

A cultura de HQs na Itália é forte o bastante para praticamente impedir gigantes como a Marvel e a DC de conseguirem um público representativo. As bancas aqui são repletas de Mickey (“Topolino”, que faz muito sucesso com as crianças), e dos diversos quadrinhos italianos que até pouco tempo atrás eu nunca tive a curiosidade de ler: Diabolik, Natan Never, Martin Mystère, Dylan Dog, Zagor, Corto Maltese, obras de Milo Manara e personagens mais novos, como Rat’Man e WITCH.

Os mais vendidos são as histórias de cowboy TEX e suas aventuras no Velho Oeste. Mas eu sou muito mais a mistura entre policial e sobrenatural de Dylan.

As histórias são sempre dramas que envolvem – ou não, como Dylan sempre tenta provas – fantasmas, monstros, zumbis, vampiros, lobisomens, extraterrestres, cientistas malucos e assassinos de todos os tipos. O quadrinho começou a ser feito em 1986, as histórias se passam em Londres e é impresso em preto e branco no papel-jornal. Os admiradores e fãs são muitos. Conheci uma garota aqui que coleciona desde pequena e tem todas as edições em casa – algumas até muito valiosas! Ela me deu duas revistas que tinha repitidas. Impressões originais (com o preço em lira)! Como diria Dylan, “Giuda Ballerino!”

Uma música pra falar de Itália

setembro 10, 2008

Sentados na cozinha com vinho na mesa e computador conectado no Youtube, eu e uma amiga italiana procurávamos a música que melhor falasse sobre a Itália pra eu postar aqui.

A primeira opção óbvia, o hino nacional italiano, da época em que a Áustria mandava em tudo, é uma evocação pela união do país para lutar contra os inimigos – meio de dar medo, pois enquanto o nosso hino fala de estar “ao som do mar e à luz do céu profundo”, esse aqui insiste em falar de sangue e morte…

“Noi siamo da secoli / Calpesti, derisi, / Perché nom siam popolo, / Perché siam divisi.

Raccolgaci un’unica / Bandiera, una speme: / Di fonderci insieme / Già l’ora suonò.

Stringiamci a coorte / Siam pronti alla morte / L’Italia chiamò. Sì!”

“Nós somos há séculos / Desprezados, zombados, / Porque não somos um povo, / Porque somos divididos.

Nos una uma única / Bandeira, uma esperança: / De fundirmo-nos juntos / Enfim a hora chegou.

Unimos-nos à coorte / Estejamos prontos para a morte / A Itália chamou. Sim!”

Quer dizer, desde aquela época já diziam que a Itália era uma nação dividida: enquanto no Norte brigavam pela liberdade, a vida no sul, política e a culturalmente, era bem diferente e isolada – acho que não mudou muita coisa hoje né…

E é pelo memso motivo que não tem como dizer que as famosas Tarantellas sao canções que expressam bem toda a Itália. Enquanto o hino pode ser considerado coisa do nacionalismo nortista, a tarantella é coisa da vida festeira e alegre do sul. Tanto que depois de quase 6 meses morando em Roma, ainda nao encontrei um itailano que saiba dançar uma tarantella!

As pizzicas e tarantella são música do povão, música de terrone. E, principalmente, é música feita pra dançar. E a história delas é muito boa: as canções serviam como “dança de exorcisação” para que o veneno, o mal, saísse do corpo de uma pessoa que se encontrasse sob estado de “tarantismo” – uma espécie de êxtase compulsivo que se acreditava ser causado pela picada de uma tarântula.

(Aí você imagina a cena: a italianada no meio da fazenda de café em Sorocaba, quando uma linda italianinha que colhia graciosamente os grãos sente uma picada na mão… “Mamma! Pappa! Aiutoooo” “Ma porca putana, Giulliana, che c’è?” “Guarda, mamma! Una ragna me ne ha morso!!!” “OH DIO SANTO! FIGLIA MIA! TESORO! ANIMA BENEDETTA! Giuseppe, viene qui!!!” “Ma porca putana, Valentina, che c’è?” “Giuliana se ne è stata morsa per una ragna!” “OH DIO SANTO! FIGLIA MIA! TESORO! ANIMA BENEDETTA! Aspetta che papa prende l’acordeon e il tamburello!!!”. Aí o papà pega um banquinho e um acordeon que tinha reservado para caso de picadas de aranha, e começa a tocar. A filha chora desesperada enquanto pula que nem uma louca com o tamburello pra espantar o veneno. E a italianada da fazenda pára de colher café e fica alí em volta “hey! hey! hey!”. O melhor é que essa tática sempre funcionava, porque as tarântulas não tem veneno…)

>> Essa é a Tarantella Napoletana, mais folclórica, toda coreografada, com as moças em trajes típicos e tamburellos. Coisa pra turista ver.

>> Tarantella calabresa de Aspromonte, em Reggio Calabria. Se dança que nem um louco, batendo os pés, e com as mãos e os braços pra cima, meio desengonçados…

A busca pela ‘canção mais italiana de todas’ levou a gente pelas óperas de Verdi (La Traviata), Puccini (Madame Butterfly) e Rossini (O Barbeiro de Sevilha), e mais um monte de Luciano Pavarotti e todas as musicas italianas pop’s melosas.

Mas eis que veio à mente da minha amiga uma cançao do Giorgio Gaber, um compositor ja falecido, que fala muito mais sobre o pais do que qualquer post nesse blog conseguiria falar. Está tudo aqui: o problema com os estrangeiros (extremamente atual, hoje em dia com os romenos…), a burocracia, a paixão pelo futebol, o fascismo, o peso do passado cultural…

(…)

Mi scusi Presidente / non sento un gran bisogno / dell’inno nazionale / di cui un po’ mi vergogno.
In quanto ai calciatori / non voglio giudicare / i nostri non lo sanno / o hanno più pudore.

Mi scusi Presidente / se arrivo all’impudenza / di dire che non sento / alcuna appartenenza.
E tranne Garibaldi / e altri eroi gloriosi / non vedo alcun motivo / per essere orgogliosi.

Mi scusi Presidente / ma ho in mente il fanatismo / delle camicie nere / al tempo del fascismo.
Da cui un bel giorno nacque / questa democrazia / che a farle i complimenti / ci vuole fantasia.

Questo bel Paese / pieno di poesia / ha tante pretese / ma nel nostro mondo occidentale / è la periferia.

Mi scusi Presidente / ma questo nostro Stato / che voi rappresentate / mi sembra un po’ sfasciato.
E’ anche troppo chiaro / agli occhi della gente / che tutto è calcolato / e non funziona niente.
Sarà che gli italiani / per lunga tradizione / son troppo appassionati / di ogni discussione.
Persino in parlamento / c’è un’aria incandescente / si scannano su tutto / e poi non cambia niente.

Mi scusi Presidente / dovete convenire / che i limiti che abbiamo / ce li dobbiamo dire.
Ma a parte il disfattismo / noi siamo quel che siamo / e abbiamo anche un passato / che non dimentichiamo.

Mi scusi Presidente / ma forse noi italiani / per gli altri siamo solo / spaghetti e mandolini.
Allora qui mi incazzo / son fiero e me ne vanto / gli sbatto sulla faccia / cos’è il Rinascimento.

Questo bel Paese / forse è poco saggio / ha le idee confuse / ma se fossi nato in altri luoghi / poteva andarmi peggio.

Mi scusi Presidente / ormai ne ho dette tante / c’è un’altra osservazione / che credo sia importante.
Rispetto agli stranieri / noi ci crediamo meno / ma forse abbiam capito / che il mondo è un teatrino.

Mi scusi Presidente / lo so che non gioite / se il grido “Italia, Italia” / c’è solo alle partite.
Ma un po’ per non morire / o forse un po’ per celia / abbiam fatto l’Europa / facciamo anche l’Italia.

Io non mi sento italiano / ma per fortuna o purtroppo lo sono.

Adds:

(gente, olha a versao do Pernalonga do Barbeiro de Sevilha aqui! hehe, inesquecivel!)

(conheci um italiano que tem um primo que ensina a tocar tarantella! Ele disse que quando ele estiver por aqui me leva pra um centro social onde se fazem as festas… hehehe, se eu for vai ter um post só pra isso!)

Sobre o peso do passado

agosto 6, 2008

Quanto mais você conhece pessoas de culturas diferentes, mais consegue se auto-definir, entender o que faz de você brasileiro, independente de gostar ou não de futebol, samba e cachaça.

E uma das coisas que mais me fez sentir diferente dos italianos, ingleses ou espanhóis que conheci, foi o fato de não ter uma “longa história de família vinculada à minha terra”. Peraê, que eu vou explicar!

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Pau, catalão, 26 anos, estuda geografia, mora em Barcelona e é um dos poucos catalãos que conheci que se declara “independentista”. Pra ele, um povo com cultura, língua e estabilidade econômica pode, e deve, tornar-se um Estado independente, caso queira.

A Catalunha, como a Galiza e o País Basco, têm uma cultura totalmente diversa do resto da Espanha, e não se tornaram independentes como Portugal por uma simples questão histórica: foram os ingleses que apoiaram a independência de Portugal no seculo XII, por questões estratégicas.

Quando pergunto sobre a atuação do ETA, grupo separatista Basco, ele obviamente não apóia a atuação violenta, terrorista, para se conseguir a independência. “Não é interessante para a economia da Espanha se separar dessas regiões, então as coisas vão continuar assim por muito tempo, talvez para sempre. Mas também não estamos em uma época de pegar em armas pra brigar por esse tipo de ideal. Só que essa idéia não pode morrer, nao dá para esquecer também o quanto meus avós sofreram na ditadura de Franco, quando muitos eram torturados ou mortos por falarem catalão nas ruas”.

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Elena, italiana, 24 anos, tem um asco enorme de manifestações fascistas, e esta sempre criticando e discutindo política. Tem completa noção e orgulho de ser uma “italiana de esquerda”.

Ela me contou sobre a história de sua família, que na época do fascismo era “partigiana” dos partidos socialistas. Ou seja, foram caçados como judeus dentro do país.

Uma bisavó que, ao acordar, encontrou a família enforcada nas árvores do quintal de casa. Dois avôs que se recusaram a fazer a “carteirinha fascista” e foram enviados para o campo de concentração. Um deles, comemora o aniversário na data em que escapou de um fuzilamento, em que faziam uma fila de pessoas e selecionavam os que seriam mortos com o critério “um, dois, disparar; um, dois, disparar”. “Eu era o numero dois”.

“Não tem como esquecer isso, Rafael. Sou orgulhosa por minha família nunca ter se rendido ao fascismo. E se hoje, qualquer tipo de golpe estourasse, eu não exitaria em lutar até as últimas consequências”.

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Ok, onde eu quero chegar com isso? O que eu penso, é que aqui na Europa as pessoas têm uma história de família ligada fortemente à sua terra, seu país, seu povo. Um passado pesado que inevitavelmente transforma cada um num fruto de uma importante história, um partidário de uma causa.

No Brasil, muitas famílias estão no país há menos de 4 gerações. O sentimento de “ser brasileiro”, a relação com a terra, ainda não é claro. Nossa história não é formada por grandes revoluções e grandes lutas por liberdade – e as poucas histórias que temos parecem não ter reflexo nas pessoas hoje.

Ja nossos heróis, são uma piada. Sabemos muito bem como D. Pedro I era um tarado filhinho de papai, e como Tirandentes era foi transformado em mártir pela simples necessidade de se criar um mártir.

Mas penso que tudo isso não é ruim. Ao contrário, não ter um peso histórico sobre as costas nos transforma em uma nação que facilmente se adapta às mudanças do mundo, que já vive o “pós-industrialismo”, ou “pós-modernidade”, ou “organização complexa da sociedade”, ou “sociedade em rede”, ou seja lá como vão decidir nos chamar daqui um tempo.

Frascati, cidade do vinho

julho 26, 2008

Sábado à tarde, nada pra fazer, e aquele calorzão de verão italiano. Depois de girar por 5 meses dentro de Roma, o melhor a fazer é escapar pra outra cidade – já que tudo aqui é muito bem ligado por trens. Em meia hora se chega na praia, em quarenta minutos se visita a região de lagos onde fica o Castelo Gandolfo (a casa de verão do Papa), ou mesmo algumas cidadezinhas dessa região central da Itália.

Hoje, visitei uma cidade pequeninha, no alto das montanhas ao redor de Roma, numa altitude suficiente pra se ver toda a capital italiana. Frascati é considerada o centro dos “Castelli Romani”, uma área muito importante por causa dos seus vinhos.

Uma paz imensa, igrejas, ruinhas estreitas e gente discutindo por qualquer coisa nas ruas. Conhecemos o centro em menos de uma hora e fomos para o que interessa: comer e beber.

Depois de procurar um bom tempo por um lugar pra sentar, descobrimos que o que o povo faz ali é comprar a ‘porchetta’ (carne de porco assada) no mercado de rua e ir até um ‘fraschete’, uma cantina onde se sentam pra comer e encher a cara com vinhos maravilhosos.

Foi numa cantina dessas que bebi o melhor vinho branco da minha vida! Sem taça, sem garçom servindo pra degustação, sem frescura nenhuma. O vinho não tinha nem nome – o tiozinho da cantina falou que era feito em Frascati e encheu a garrafa com a bebida fresquinha, antes reservada no barril que estava atrás do balcão.

>> Não teve como não lembrar do meu pai. Queria muito que ele estivesse alí, hehe

Nos sentamos alí, pedimos o vinho branco, e comemos a porcheta que tínhamos comprado no mercado de rua, achando muito estranho essa coisa de ‘comprar ali e comer aqui’ – em São Paulo não nos deixariam fazer isso nunca! Mas vimos que os italianos chegavam com comida de fora, se sentavam dentro da cantina e pediam um vinho pra acompanhar.

Isso é uma coisa que eu gosto muito na Itália: cada lojinha na rua é especializada em uma coisa, oferecem só um tipo de produto e o fazem muito bem, há anos, há gerações, sem aquela concorrência estúpida. Não existe a vontade de querer sugar o máximo do cliente, fazendo ele comprar outras tantas coisas.

Quando você quer fazer compras, vai ao centro da cidade e anda pelas ruas, entrando de lojinha em lojinha – nada de shopping center ou megaboulangeries. Se você quer um bom pão italiano, vai à paniteria do fulano. Se quer frios baratos e de qualidade, vai à salumeria do cicrano. Se quer lanchinhos, paninoteca da esquina. Se quer cigarros, tabacaio da vizinha. Se quer se esbaldar com doces, à pasticceria da família tal.

Dizem que a Itália parou no tempo, que as pessoas têm a mesma mentalidade de séculos atrás.

Ainda bem. Aqui, os negócios parecem ter uma coisa que as grandes redes perderam: a humanidade.

Sobre viver em um país “ex-fascista”

julho 9, 2008

Quando cheguei em Roma, algumas pixações com um símbolo de um círculo com uma cruz ao centro me despertaram algum incômodo. Esse símbolo é normalmente associado aos movimentos de ‘orgulho branco‘ em todo o mundo. Mas aquilo era só uma amostra de tudo o que eu estava por ver.

Andando de ônibus um dia desses, cedi lugar pra uma velhinha que entrou. Ela começou a puxar papo, e conversamos até o ponto onde eu tinha que descer. “A Itália está uma bagunça agora. Por mim, queria o Mussolini de volta. Na época dele tinha escola, a saúde era boa e a cidade era linda”. Confirmei com a cabeça, dando aquele sorrisinho sem graça. Afinal, “esse pessoal mais velho é mais conservador mesmo. Deixa pra lá….”

Ouvi a mesma opinião de mais dois senhores em outras giradas de ônibus pela cidade e, pra minha surpresa, de um garçom em um restaurante – um cara com uns 25 anos. “Na época de Mussolini, a Itália era respeitada”.

Não discuti por muito tempo. Estou em território estrangeiro, e o meu poder de argumentação em italiano ainda não está bom o suficiente pra travar um debate político ácido assim. Talvez, pensei, “é uma coisa de momento, já que o país está mergulhado numa crise e as pessoas se sentem perdidas na hora de acreditar na política”… Afinal, um país que elege pela terceira vez um governante como Berlusconi – terceiro homem mais rico da Itália, dono da Fininvest, atualmente defensor de políticas fortes para barragem de estrangeiros, acusado de envolvimento com a máfia e partidos fascistas – deve estar bem confuso.

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Mas aos poucos fui percebendo que essas manifestações fascistas não eram apenas casos isolados. Na TV, a neta de Benito Mussolini, Alessandra Mussolini – ex-modelo da playboy e atriz – ia pessoalmente a programas de auditório para discursar sobre as iniciativas de um partido de extrema-direita, o Forza Nuova – claramente fascista, que defende, entre outras coisas, adoção de políticas claramente xenófobas, o fim do estado laico e a derrubada das leis que proíbem a política fascista assumida na Itália.

Dentre algumas das declarações públicas na TV de Alessandra Mussolini, ela soltou uma frase que se refere à homossexualidade e gerou uma polêmica enorme em todo o país: “Melhor ser fascista do que ser frouxo”.

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Roma Gay Pride 2008, começo de junho. O tema da parada: “melhor ser frouxo do que ser fascista”. 30 homens vestindo roupa social, fingindo que estavam indo pra um casamento, penetram a passeata e começam a disparar ofenças contra as pessoas que seguiam os carros de som. “Vamos esfaquear todos vocês!”, gritavam. Por sorte, a polícia já tinha sacado a tentativa e em minutos tirou o grupo de neo-fascistas do meio da multidão.

O que me espanta muito, é que não foram ‘dois adolescentes que atacaram alguém no meio da noite’. Eram 30 homens, no meio de uma manifestação coberta por toda a imprensa, nacional e internacional.

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Conversando com um italiano num bar, uma noite dessas, ele me contou uma história de quando estava andando com sua namorada por uma rua de uma cidade do norte do país, quando cruzou com 2 skinheads. Os caras mexeram com a namorada dele, e ele foi tirar satisfação. Depois de discutirem, foi parar no chão coberto de pontapés, enquanto a namorada chorava.

Dois policiais chegaram. Os skinheads pararam de chutar o cara e ergueram as mãos, fazendo a saudação fascista. Os policiais pediram pra abaixarem as mãos, mas eles fingiram não ouvir.

Com golpes de cacetete, os policiais tentaram por muito tempo baixar as mãos dos rapazes, que se mantinham firmes como estátuas. Tiveram que chamar reforço pra levá-los presos.

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Há algumas semanas atrás, perto da reitoria da Sapienza, principal universidade de Roma, um grupo de estudantes de extrema-direita se reuniu pra fazer uma manifestação. Se encontraram com um grupo de estudantes de esquerda, e tudo terminou em pancadaria e muita gente ferida.

Quem começou a briga, ninguém sabe. Mas o fato é que aqui realmente existem manifestações de estudantes de extrema-direita. É como pensar em estudantes da USP que apóiam a volta da ditadura militar se reunindo na Praça do Relógio.

A direita fascista aqui só não ‘existe’, como também é evidente, descarada, orgulhosa e influente.

Pesquisando um pouco, descobri que a manifestação era ligada à uma organização apoiada pela Forza Nuova, chamada Luta Estudantil. Vale a pena visitar o site deles e ver os flyers disponíveis para download, que incentiva uma ‘ação com as próprias mãos’ por parte dos estudantes.

Não sei se fico mais revoltado ou chocado com essa situação toda. Às vezes me parece que o fascismo aqui não é apenas ‘um resquício de algo que aconteceu’, mas sim uma ideologia que convive e conviverá com a sociedade.

Estar aqui no meio e perceber que todo mundo sabe que isso existe é muito estranho. A nossa extrema-direita é um gatinho manso perto da extrema-direita européia.

(Olha que interessante: leiam com atenção a descrição de Alessandra Mussolini na página na Wikipedia em inglês…)


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