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E eu fui ver o Papa…

novembro 3, 2008

Não que eu estivesse muito empolgado com a idéia ou fizesse questão. Mas morar em Roma por 1 ano sem ver o Papa é como morar no Rio sem ser assaltado ou morar em São Paulo e não somar pelo menos 24 horas parado no trânsito. Então eu fui.

Um mooonte de gente. De todo o mundo. Era uma mistura de “cena de filme em que povos primitivos fazem rituais para a chegada de um deus” e um show de rock.

Telões, aparelhagem de som ultra-moderna, seguranças, bandeiras, cartazes, famílias de todos os tipos (menos as modernas, se é que vocês me entendem…), pessoas tocando instrumentos estranhos e vestidas com roupas estranhas típicas de seus países estranhos de meia dúzia de habitantes… uma grande zona na Praça São Pedro.

Eu achava que o Papa ia aparecer na janela da Basílica de São Pedro. Mas não, quando ouvi a galera gritando, pela primeira vez, era porque tinham extendido um tapete vermelho pra fora de uma janelinha lá longe, num prédio que fica já dentro dos muros do Vaticano, onde ele apareceria.

São momentos de espera com muita ansiedade e tensão no ar… Mas de repente, tcha-nam! Eis que o Papa aparece na sua janelinha-longínqua. E a galera vai ao delííírio! Os homens choram, as velhinhas desmaiam, as crianças ficam observando as pombas e reclamando de fome…

Primeiro ele faz um apelo geral. Sempre mete o dedo em alguma coisa da política internacional (opinião só ouvida pela Itália). Depois, reza com todo mundo junto. Foi muito interessante, porque cada um rezava na sua língua e mesmo assim parecia que todos diziam as mesmas palavras. Nanananaam, nanananaaaam, nanananaaa-aaaaannn…. aaaaaaaameeee-eeeeemmm…

Depois, o momento mais esperados por todos: o Papa cumprimenta a multidão em diversas línguas. E quando ele fala na sua língua, a idéia é fazer como se estivesse na platéia do Sílvio Santos e ele dissesse o nome da sua caravana:

Os brasileiros chacoalhavam a bandeira, e choravam, e gritavam… Afinal, era a primeira palavra que saia da boca do Papa que eles estavam entendendo desde que ele tinha começado a falar.

Aí ele vai embora e as pessoas saem caminhando pela Rua da Conciliação, uma rua contruída pelo fascismo para ressaltar a visão da faraônica Basília de São Pedro, enquanto as centenas de turistas pagam caríssimo por terços com imagens de igrejas romanas e fotos do Papa.

O que é um pontinho branco reluzente lá longe, pra quem todos olham? É um PapaStar! Rá!

O que é um pontinho branco reluzente lá longe, pra quem todos olham? É um PapaStar! Rá!

Muitas, muitas, muitas pessoas...

Muitas, muitas, muitas pessoas...

Programão de domingo da feliz familia croata.

Programão de domingo da feliz família croata.

PAPArazzis? Rá!

PAPArazzis? Rá!

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133: La riforma Gelmini

novembro 3, 2008

A Itália é um país de conservadores. A Itália definitivamente não é um Estado laico. A Itália reelegeu (de novo), agora em 2008, um cara que tem descarados acordos com a máfia, denúncias e denúncias de corrupção e apoio de partidos de extrema-direita (leia “fascistas”). Dono da Fininvest, do Império MediaSet, terceiro homem mais rico do país.

Era óbvio que muito mais merda estava por vir com esse governo, mas não imaginei que ousariam atingir tão descaradamente a educação.

As horas de estudo semanais das crianças vão cair quase pela metade. Um monte de professores será simplesmente chutado pra rua, sem esperanças de conseguir um novo emprego. Para o ensino fundamental, o retorno da figura do “professor único” (responsável por lecionar todas as matérias) com um só material didático. E o sistema de escolha desses professores não está claro para ninguém: duvido que seja totalmente meritocrático.

Notas de comportamento com o mesmo peso e importância das outras notas. E a noção italiana de comportamento está muito mais próxima da “submissão” do que da nossa noção moderninha de “aluno participativo e interessado”.

(Estavam querendo, inclusive, criar salas separadas para os estudantes estrangeiros, que “não tem um conhecimento mínimo necessário da língua italiana.” Parece que essa proposta não foi avante. Pelo menos. Ufa. Mas que tipo de governo chega ao menos a COGITAR isso?)

E as medidas específicas para os cortes nas Universidades serão evidenciadas em breve. Provavelmente, incluindo fundações privadas nas universidades públicas, despedindo professores, aumentando a taxa anual de inscrição dos alunos, etc. E, é claro, cortando drasticamente a verba para pesquisas.

Faculdades como a de Física estão paralisadas, em greve, ocupadas, etc etc etc… – afinal, quem se forma alí ou vira professor ou vira pesquisador. Ou seja, ta ferrado de qualquer forma.

A minha universidade, a principal de Roma, está pra ser paralisada. Alguns prédios já foram ocupados. Mas não sei onde isso vai dar, porque aqui ninguém na mídia vai querer ouví-los. Aqueles que o faziam já foram “excomungados” pelo Berlusca há muito tempo.

Particularmente, eu sou apaixonado por esse lugar, por esses prédios, por toda a história, pela cultura, pelas pessoas, pela comida, pela língua, pelos museus, pelos quadrinhos, pela música… mas como dizem meus amigos italianos: “sendo governado assim, QUEM QUER FICAR AQUI?” Os grandes jornalistas, os acadêmicos, artistas… o que fazem? Vão embora! Tá todo mundo planejando a viagem pra Londres, Madrid…

E mesmo com a mídia totalmente na mão do governo (pra quem não sabe: Na TV, a RAI é estatal e a MediaSet é do Berlusconi, enquanto todos os jornais impressos são subsidiados pelo governo) não teve como não escapar algumas “notícias-contra”. Não deu outra, o Berlusconi ameaçou publicamente os editores e diretores dos telejornais.

E embora aqui o povo seja bem alienado, o número de manifestações vem sendo ABSURDO. Como todas se reúnem numa praça que fica do lado de onde estou morando, dá pra ver que dessa vez o negócio é bem sério. Hoje em Roma, divulgaram que no total haviam cerca de 800.000 pessoas manifestando nas ruas (muuuuita gente pros padrões da cidade – quase 1/3 da população da Roma metropolitana). Mas ouvi muita gente alí dizer que tinha mais gente, que o número divulgado era baixo, que eles estavam batendo a casa do 1 milhão.

(É interessante ver até os colégios parando, e estudantes de 15 anos de idade passando os sábados nas ruas. Pra um moleque de 15 anos na Itália sair pra protestar… ta foda! Eles vão com um milk-shake do Mc’Donalds numa mão e óculos Dolce&Gabanna no rosto… mas vão, porque essa manifestação é bem maior do que um simples posicionamento político.)

Um amigo meu italiano que faz Ciências Políticas aqui, me fala sempre mais ou menos assim:

“Quando nós pegamos um livro pra estudar o levante dos regimes totalitários, principalmente os mais modernos, observamos que as mudanças são sempre sutis e seguem os mesmos passos. Pegamos essa lista de passos e fomos ‘ticando’ com base no que vem acontecendo na Itália: Figura carismática que se mantém no poder através da mudança das leis anteriores, feito… Censura, controle dos meios de comunicação, feito… Apelo à família, aos antigos valores, à moral, feito… Investimento nas forças militares e na sua atuação nas ruas, feito… Restrição e controle do sistema educacional, feito… Pois é, se continuarmos assim, estamos a poucos passos de uma coisa bem maior e ninguém percebeu isso…”

Torço muito pra essa lei reforçar a esquerda, pra que talvez nas próximas eleições alguma mudança aconteça.
Dói ver esse país imerso nesse tipo contexto político. Uma coisa é ser um país conservador, outra coisa é caminhar pra trás.

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Esposições de Roma

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Exposições de Roma