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Viva Zapatero!

março 2, 2009

Quando eleito, Silvio Berlusconi representava uma esperança para um país afundado em escândalos e corrupção. Nós brasileiros sabemos como é isso, sabemos que a esperança é um ótimo argumento para a propaganda política, e sabemos que depois de alguns anos de governo, as fantasias caem e política volta a ser do jeito que era antes.

Pois bem, em pouco tempo as investigações sobre a origem do dinheiro das campanhas de Berlusconi e sobre seus diversos acordos “debaixo do pano” começaram a vir à tona. Mas antes que a Itália percebesse, ele montou um esquema midiático que não deixou essas informações repercutirem. Em pouco tempo, o parlamento estava trabalhando para aprovar uma série de leis que garantiriam seus interesses: imunidade jurídica, fim de um segundo turno nas eleições, e até mesmo a chamada “ lei Gaspari” – que garante a Berlusconi a possibilidade de ter o monopólio televisivo, e até expandí-lo.

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Sabrina Guzzanti é uma comediante italiana que em 2003 começou um programa satírico na TV RAI chamado “RAIOT”- uma espécie de “Casseta e Planeta”, apresentando suas imitações e seus personagens, com textos humorísticos mais densos, mais críticos.

Sabrina aproveitou a situação e dedicou o primeiro episódio do programa ao debate sobre a lei Gaspari. O programa não passou da primeira edição.

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Mesmo que a censura seja hoje contra o artigo 21 da Constituição Italiana, o programa foi tirado do ar sem muitas explicações. Alguns alegaram que o programa era impróprio para o horário. Outros, que aquilo era propaganda política. Outros, que não tinha graça. (Eu discordo, e acho que as imitações e personagens de Guzzanti foram as coisas que mais me fizeram rir na mídia por aqui. Tirando os depoimentos do Berlusca, que são sempre uma comédia…).

O fato é que a TV italiana está cada vez mais cheia de culinária, de programas de palco, de discussões intermináveis sobre temas sensacionalistas. Enquanto eu estava lá, as pessoas só sabiam falar sobre o fiho que esfaqueou a mãe, sobre pasta ao forno e sobre a “crise da mozzarella”.

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Se você se interessa pelo assunto e quer dar algumas boas risadas, procure pelo documentário que Sabina Guzzanti fez sobre o fim de seu programa na RAI: “Viva Zapatero!”. Dá pra entender um pouco mais sobre o atual contexto de um país onde os jornais ainda são subsidiados pelo governo, onde a televisão está dividida entre a RAI, a TV pública, e a MediaSet, de Berlusconi – também dono da principal editora do país. Enfim, dá pra entender um pouco mais sobre um país onde, hoje, os comunicadores vivem com medo de dizerem o que querem. Termino o post com as palavras com que Sabina abre o primeiro e único episódio de seu programa, entrando no palco depois de já ter sido ameaçada de ser tirada do ar uma vez.

“Vocês sabiam que a Itália é o 53º país numa numa lista mundial de liberdade de informação? 53º numa lista de 166 países. Não é uma bela posição. Não é nada bela. Vocês já ouviram falar sobre isso na televisão? Alguem já disse isso no telejornal? Acho que não, né? Bom, acho que se tivessem falado, não estariámos no 53º lugar…”