Posts Tagged ‘crônica’

Sobre o peso do passado

agosto 6, 2008

Quanto mais você conhece pessoas de culturas diferentes, mais consegue se auto-definir, entender o que faz de você brasileiro, independente de gostar ou não de futebol, samba e cachaça.

E uma das coisas que mais me fez sentir diferente dos italianos, ingleses ou espanhóis que conheci, foi o fato de não ter uma “longa história de família vinculada à minha terra”. Peraê, que eu vou explicar!

.

Pau, catalão, 26 anos, estuda geografia, mora em Barcelona e é um dos poucos catalãos que conheci que se declara “independentista”. Pra ele, um povo com cultura, língua e estabilidade econômica pode, e deve, tornar-se um Estado independente, caso queira.

A Catalunha, como a Galiza e o País Basco, têm uma cultura totalmente diversa do resto da Espanha, e não se tornaram independentes como Portugal por uma simples questão histórica: foram os ingleses que apoiaram a independência de Portugal no seculo XII, por questões estratégicas.

Quando pergunto sobre a atuação do ETA, grupo separatista Basco, ele obviamente não apóia a atuação violenta, terrorista, para se conseguir a independência. “Não é interessante para a economia da Espanha se separar dessas regiões, então as coisas vão continuar assim por muito tempo, talvez para sempre. Mas também não estamos em uma época de pegar em armas pra brigar por esse tipo de ideal. Só que essa idéia não pode morrer, nao dá para esquecer também o quanto meus avós sofreram na ditadura de Franco, quando muitos eram torturados ou mortos por falarem catalão nas ruas”.

.

Elena, italiana, 24 anos, tem um asco enorme de manifestações fascistas, e esta sempre criticando e discutindo política. Tem completa noção e orgulho de ser uma “italiana de esquerda”.

Ela me contou sobre a história de sua família, que na época do fascismo era “partigiana” dos partidos socialistas. Ou seja, foram caçados como judeus dentro do país.

Uma bisavó que, ao acordar, encontrou a família enforcada nas árvores do quintal de casa. Dois avôs que se recusaram a fazer a “carteirinha fascista” e foram enviados para o campo de concentração. Um deles, comemora o aniversário na data em que escapou de um fuzilamento, em que faziam uma fila de pessoas e selecionavam os que seriam mortos com o critério “um, dois, disparar; um, dois, disparar”. “Eu era o numero dois”.

“Não tem como esquecer isso, Rafael. Sou orgulhosa por minha família nunca ter se rendido ao fascismo. E se hoje, qualquer tipo de golpe estourasse, eu não exitaria em lutar até as últimas consequências”.

.

Ok, onde eu quero chegar com isso? O que eu penso, é que aqui na Europa as pessoas têm uma história de família ligada fortemente à sua terra, seu país, seu povo. Um passado pesado que inevitavelmente transforma cada um num fruto de uma importante história, um partidário de uma causa.

No Brasil, muitas famílias estão no país há menos de 4 gerações. O sentimento de “ser brasileiro”, a relação com a terra, ainda não é claro. Nossa história não é formada por grandes revoluções e grandes lutas por liberdade – e as poucas histórias que temos parecem não ter reflexo nas pessoas hoje.

Ja nossos heróis, são uma piada. Sabemos muito bem como D. Pedro I era um tarado filhinho de papai, e como Tirandentes era foi transformado em mártir pela simples necessidade de se criar um mártir.

Mas penso que tudo isso não é ruim. Ao contrário, não ter um peso histórico sobre as costas nos transforma em uma nação que facilmente se adapta às mudanças do mundo, que já vive o “pós-industrialismo”, ou “pós-modernidade”, ou “organização complexa da sociedade”, ou “sociedade em rede”, ou seja lá como vão decidir nos chamar daqui um tempo.

Anúncios

Sobre viver em um país “ex-fascista”

julho 9, 2008

Quando cheguei em Roma, algumas pixações com um símbolo de um círculo com uma cruz ao centro me despertaram algum incômodo. Esse símbolo é normalmente associado aos movimentos de ‘orgulho branco‘ em todo o mundo. Mas aquilo era só uma amostra de tudo o que eu estava por ver.

Andando de ônibus um dia desses, cedi lugar pra uma velhinha que entrou. Ela começou a puxar papo, e conversamos até o ponto onde eu tinha que descer. “A Itália está uma bagunça agora. Por mim, queria o Mussolini de volta. Na época dele tinha escola, a saúde era boa e a cidade era linda”. Confirmei com a cabeça, dando aquele sorrisinho sem graça. Afinal, “esse pessoal mais velho é mais conservador mesmo. Deixa pra lá….”

Ouvi a mesma opinião de mais dois senhores em outras giradas de ônibus pela cidade e, pra minha surpresa, de um garçom em um restaurante – um cara com uns 25 anos. “Na época de Mussolini, a Itália era respeitada”.

Não discuti por muito tempo. Estou em território estrangeiro, e o meu poder de argumentação em italiano ainda não está bom o suficiente pra travar um debate político ácido assim. Talvez, pensei, “é uma coisa de momento, já que o país está mergulhado numa crise e as pessoas se sentem perdidas na hora de acreditar na política”… Afinal, um país que elege pela terceira vez um governante como Berlusconi – terceiro homem mais rico da Itália, dono da Fininvest, atualmente defensor de políticas fortes para barragem de estrangeiros, acusado de envolvimento com a máfia e partidos fascistas – deve estar bem confuso.

.

Mas aos poucos fui percebendo que essas manifestações fascistas não eram apenas casos isolados. Na TV, a neta de Benito Mussolini, Alessandra Mussolini – ex-modelo da playboy e atriz – ia pessoalmente a programas de auditório para discursar sobre as iniciativas de um partido de extrema-direita, o Forza Nuova – claramente fascista, que defende, entre outras coisas, adoção de políticas claramente xenófobas, o fim do estado laico e a derrubada das leis que proíbem a política fascista assumida na Itália.

Dentre algumas das declarações públicas na TV de Alessandra Mussolini, ela soltou uma frase que se refere à homossexualidade e gerou uma polêmica enorme em todo o país: “Melhor ser fascista do que ser frouxo”.

.

Roma Gay Pride 2008, começo de junho. O tema da parada: “melhor ser frouxo do que ser fascista”. 30 homens vestindo roupa social, fingindo que estavam indo pra um casamento, penetram a passeata e começam a disparar ofenças contra as pessoas que seguiam os carros de som. “Vamos esfaquear todos vocês!”, gritavam. Por sorte, a polícia já tinha sacado a tentativa e em minutos tirou o grupo de neo-fascistas do meio da multidão.

O que me espanta muito, é que não foram ‘dois adolescentes que atacaram alguém no meio da noite’. Eram 30 homens, no meio de uma manifestação coberta por toda a imprensa, nacional e internacional.

.

Conversando com um italiano num bar, uma noite dessas, ele me contou uma história de quando estava andando com sua namorada por uma rua de uma cidade do norte do país, quando cruzou com 2 skinheads. Os caras mexeram com a namorada dele, e ele foi tirar satisfação. Depois de discutirem, foi parar no chão coberto de pontapés, enquanto a namorada chorava.

Dois policiais chegaram. Os skinheads pararam de chutar o cara e ergueram as mãos, fazendo a saudação fascista. Os policiais pediram pra abaixarem as mãos, mas eles fingiram não ouvir.

Com golpes de cacetete, os policiais tentaram por muito tempo baixar as mãos dos rapazes, que se mantinham firmes como estátuas. Tiveram que chamar reforço pra levá-los presos.

.

Há algumas semanas atrás, perto da reitoria da Sapienza, principal universidade de Roma, um grupo de estudantes de extrema-direita se reuniu pra fazer uma manifestação. Se encontraram com um grupo de estudantes de esquerda, e tudo terminou em pancadaria e muita gente ferida.

Quem começou a briga, ninguém sabe. Mas o fato é que aqui realmente existem manifestações de estudantes de extrema-direita. É como pensar em estudantes da USP que apóiam a volta da ditadura militar se reunindo na Praça do Relógio.

A direita fascista aqui só não ‘existe’, como também é evidente, descarada, orgulhosa e influente.

Pesquisando um pouco, descobri que a manifestação era ligada à uma organização apoiada pela Forza Nuova, chamada Luta Estudantil. Vale a pena visitar o site deles e ver os flyers disponíveis para download, que incentiva uma ‘ação com as próprias mãos’ por parte dos estudantes.

Não sei se fico mais revoltado ou chocado com essa situação toda. Às vezes me parece que o fascismo aqui não é apenas ‘um resquício de algo que aconteceu’, mas sim uma ideologia que convive e conviverá com a sociedade.

Estar aqui no meio e perceber que todo mundo sabe que isso existe é muito estranho. A nossa extrema-direita é um gatinho manso perto da extrema-direita européia.

(Olha que interessante: leiam com atenção a descrição de Alessandra Mussolini na página na Wikipedia em inglês…)

Porque é bom voltar da festa de ônibus

junho 18, 2008

Bebendo uma cerveja sentado no meio de uma praça de Trastevere em plena madrugada, não deu pra não pensar que, em São Paulo, isso não seria possível.
Dá um certo mal estar lembrar como é viver o tempo todo com medo, e que logo vou ter que voltar pra essa realidade. E não sinto essa dor só por mim, porque imagino o quanto meus amigos e ou qualquer outro grupo de amigos curtiria muito sair de casa sem estar blindado quando quer se divertir pela noite.

Ao ficar procurando um lugar para estacionar o carro nas ruas lotadas às 2 da manhã, lembro de todos os estacionamentos privados que existem em cada barzinho da Vila Madalena, em cada shopping center. Voltando pra casa depois da festa dentro de um ônibus, penso qual seria o valor do taxi que eu deveria pagar.
A sensação de sentar e beber olhando os prédios, praças e fontes, sem precisar pagar por aquilo, é uma sensação de vida. Já deu pra perceber que vou sentir saudade das noites de verão pelas praças de Roma.

Biblioteca

junho 18, 2008

Quando fui pesquisar uns livros pra um trabalho da faculdade na biblioteca enorme que fica aqui perto de casa, a recepcionista me disse que eu precisava fazer uma carteirinha pra entrar no prédio. “Pronto… Começou a italianagem…” – pensei. Mas para o meu espanto, a carteirinha ficou pronta em menos de 10 minutos. “Uau! Alguma coisa nesse país funciona!”

Realmente, à primeira vista, a Biblioteca Nazionale Centrale de Roma me pareceu um lugar bem organizado e eficiente. Muito espaço, pesquisa de catálogo nos computadores, escravaninhas pra estudo com luz e tomada para portátil.

Depois de um agradável dia de pesquisas, achei uns bons livros pro meu argumento e… resolvi tentar emprestá-los.

– Você tem que fazer um requerimento pelo computador antes de pegá-los. É só preencher um formulário na sua conta e passar sua carteirinha no leitor ao lado dos computadores de pesquisa.
– Ok, já volto então…
– Mas esses livros que você pegou aí não podem ser emprestados. São só para leitura. Aliás, você deveria ter feito um requerimento de leitura para poder portar eles assim pela biblioteca.
– Desculpe, é a primeira vez que eu uso a biblioteca. Como eu sei quais são os livros que eu posso emprestar?
– Você faz um pesquisa pelo título da obra no computador, se tiver duas cópias, uma delas você pode emprestar.
– Ok, vou achar outro livro e fazer o requerimento então.
– Ah, mas já passou das cinco horas. Você só pode pegar um livro emprestado até as cinco horas.
– Só amanhã então?
– Sim. Só amanhã. Ah, e mais uma coisa: se o livro for datado de até cinco anos antes do atual ano, você também não pode pegar emprestado.
– Estranho… tem mais alguma coisa que eu deveria saber?
– Sim. Se o livro que você quiser for datado de antes de 1990, você não pode pegar emprestado também. E se quiser apenas consultar esse livro antigo, você tem que fazer um requerimento de leitura especial pelo computador indicando um assento da biblioteca. Alguém te entregará o livro dentro de meia hora.
– Mas… pra que tudo isso?
– É como funciona aqui. Leia as regras que te entregaram quando você fez sua carteirinha pra tirar suas dúvidas. Se quiser eu tenho mais cópias das regras aqui comigo.
– Não, obrigado… Mas então quer dizer que se eu quiser um livro emprestado, ele tem que ser datado de entre 1990 e 2003, e ter mais que uma cópia no acervo?
– Exato.
– Não vão me sobrar muitas alternativas de bibliografia então… Será que eu posso, pelo menos, fazer fotocópia dos livros que eu não posso pegar emprestado?
– Sim. Ali naquela cabine.
– Uf… obrigado.
– Mas para fazer fotocópias você deve fazer um requerimento de fotocópias, indicando as páginas que quer copiar e o motivo. Mas a cabine de fotocópia fecha às cinco também, querido. Próximo, por favor.