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Sobre viver em um país “ex-fascista”

julho 9, 2008

Quando cheguei em Roma, algumas pixações com um símbolo de um círculo com uma cruz ao centro me despertaram algum incômodo. Esse símbolo é normalmente associado aos movimentos de ‘orgulho branco‘ em todo o mundo. Mas aquilo era só uma amostra de tudo o que eu estava por ver.

Andando de ônibus um dia desses, cedi lugar pra uma velhinha que entrou. Ela começou a puxar papo, e conversamos até o ponto onde eu tinha que descer. “A Itália está uma bagunça agora. Por mim, queria o Mussolini de volta. Na época dele tinha escola, a saúde era boa e a cidade era linda”. Confirmei com a cabeça, dando aquele sorrisinho sem graça. Afinal, “esse pessoal mais velho é mais conservador mesmo. Deixa pra lá….”

Ouvi a mesma opinião de mais dois senhores em outras giradas de ônibus pela cidade e, pra minha surpresa, de um garçom em um restaurante – um cara com uns 25 anos. “Na época de Mussolini, a Itália era respeitada”.

Não discuti por muito tempo. Estou em território estrangeiro, e o meu poder de argumentação em italiano ainda não está bom o suficiente pra travar um debate político ácido assim. Talvez, pensei, “é uma coisa de momento, já que o país está mergulhado numa crise e as pessoas se sentem perdidas na hora de acreditar na política”… Afinal, um país que elege pela terceira vez um governante como Berlusconi – terceiro homem mais rico da Itália, dono da Fininvest, atualmente defensor de políticas fortes para barragem de estrangeiros, acusado de envolvimento com a máfia e partidos fascistas – deve estar bem confuso.

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Mas aos poucos fui percebendo que essas manifestações fascistas não eram apenas casos isolados. Na TV, a neta de Benito Mussolini, Alessandra Mussolini – ex-modelo da playboy e atriz – ia pessoalmente a programas de auditório para discursar sobre as iniciativas de um partido de extrema-direita, o Forza Nuova – claramente fascista, que defende, entre outras coisas, adoção de políticas claramente xenófobas, o fim do estado laico e a derrubada das leis que proíbem a política fascista assumida na Itália.

Dentre algumas das declarações públicas na TV de Alessandra Mussolini, ela soltou uma frase que se refere à homossexualidade e gerou uma polêmica enorme em todo o país: “Melhor ser fascista do que ser frouxo”.

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Roma Gay Pride 2008, começo de junho. O tema da parada: “melhor ser frouxo do que ser fascista”. 30 homens vestindo roupa social, fingindo que estavam indo pra um casamento, penetram a passeata e começam a disparar ofenças contra as pessoas que seguiam os carros de som. “Vamos esfaquear todos vocês!”, gritavam. Por sorte, a polícia já tinha sacado a tentativa e em minutos tirou o grupo de neo-fascistas do meio da multidão.

O que me espanta muito, é que não foram ‘dois adolescentes que atacaram alguém no meio da noite’. Eram 30 homens, no meio de uma manifestação coberta por toda a imprensa, nacional e internacional.

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Conversando com um italiano num bar, uma noite dessas, ele me contou uma história de quando estava andando com sua namorada por uma rua de uma cidade do norte do país, quando cruzou com 2 skinheads. Os caras mexeram com a namorada dele, e ele foi tirar satisfação. Depois de discutirem, foi parar no chão coberto de pontapés, enquanto a namorada chorava.

Dois policiais chegaram. Os skinheads pararam de chutar o cara e ergueram as mãos, fazendo a saudação fascista. Os policiais pediram pra abaixarem as mãos, mas eles fingiram não ouvir.

Com golpes de cacetete, os policiais tentaram por muito tempo baixar as mãos dos rapazes, que se mantinham firmes como estátuas. Tiveram que chamar reforço pra levá-los presos.

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Há algumas semanas atrás, perto da reitoria da Sapienza, principal universidade de Roma, um grupo de estudantes de extrema-direita se reuniu pra fazer uma manifestação. Se encontraram com um grupo de estudantes de esquerda, e tudo terminou em pancadaria e muita gente ferida.

Quem começou a briga, ninguém sabe. Mas o fato é que aqui realmente existem manifestações de estudantes de extrema-direita. É como pensar em estudantes da USP que apóiam a volta da ditadura militar se reunindo na Praça do Relógio.

A direita fascista aqui só não ‘existe’, como também é evidente, descarada, orgulhosa e influente.

Pesquisando um pouco, descobri que a manifestação era ligada à uma organização apoiada pela Forza Nuova, chamada Luta Estudantil. Vale a pena visitar o site deles e ver os flyers disponíveis para download, que incentiva uma ‘ação com as próprias mãos’ por parte dos estudantes.

Não sei se fico mais revoltado ou chocado com essa situação toda. Às vezes me parece que o fascismo aqui não é apenas ‘um resquício de algo que aconteceu’, mas sim uma ideologia que convive e conviverá com a sociedade.

Estar aqui no meio e perceber que todo mundo sabe que isso existe é muito estranho. A nossa extrema-direita é um gatinho manso perto da extrema-direita européia.

(Olha que interessante: leiam com atenção a descrição de Alessandra Mussolini na página na Wikipedia em inglês…)

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