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Uma música pra falar de Itália

setembro 10, 2008

Sentados na cozinha com vinho na mesa e computador conectado no Youtube, eu e uma amiga italiana procurávamos a música que melhor falasse sobre a Itália pra eu postar aqui.

A primeira opção óbvia, o hino nacional italiano, da época em que a Áustria mandava em tudo, é uma evocação pela união do país para lutar contra os inimigos – meio de dar medo, pois enquanto o nosso hino fala de estar “ao som do mar e à luz do céu profundo”, esse aqui insiste em falar de sangue e morte…

“Noi siamo da secoli / Calpesti, derisi, / Perché nom siam popolo, / Perché siam divisi.

Raccolgaci un’unica / Bandiera, una speme: / Di fonderci insieme / Già l’ora suonò.

Stringiamci a coorte / Siam pronti alla morte / L’Italia chiamò. Sì!”

“Nós somos há séculos / Desprezados, zombados, / Porque não somos um povo, / Porque somos divididos.

Nos una uma única / Bandeira, uma esperança: / De fundirmo-nos juntos / Enfim a hora chegou.

Unimos-nos à coorte / Estejamos prontos para a morte / A Itália chamou. Sim!”

Quer dizer, desde aquela época já diziam que a Itália era uma nação dividida: enquanto no Norte brigavam pela liberdade, a vida no sul, política e a culturalmente, era bem diferente e isolada – acho que não mudou muita coisa hoje né…

E é pelo memso motivo que não tem como dizer que as famosas Tarantellas sao canções que expressam bem toda a Itália. Enquanto o hino pode ser considerado coisa do nacionalismo nortista, a tarantella é coisa da vida festeira e alegre do sul. Tanto que depois de quase 6 meses morando em Roma, ainda nao encontrei um itailano que saiba dançar uma tarantella!

As pizzicas e tarantella são música do povão, música de terrone. E, principalmente, é música feita pra dançar. E a história delas é muito boa: as canções serviam como “dança de exorcisação” para que o veneno, o mal, saísse do corpo de uma pessoa que se encontrasse sob estado de “tarantismo” – uma espécie de êxtase compulsivo que se acreditava ser causado pela picada de uma tarântula.

(Aí você imagina a cena: a italianada no meio da fazenda de café em Sorocaba, quando uma linda italianinha que colhia graciosamente os grãos sente uma picada na mão… “Mamma! Pappa! Aiutoooo” “Ma porca putana, Giulliana, che c’è?” “Guarda, mamma! Una ragna me ne ha morso!!!” “OH DIO SANTO! FIGLIA MIA! TESORO! ANIMA BENEDETTA! Giuseppe, viene qui!!!” “Ma porca putana, Valentina, che c’è?” “Giuliana se ne è stata morsa per una ragna!” “OH DIO SANTO! FIGLIA MIA! TESORO! ANIMA BENEDETTA! Aspetta che papa prende l’acordeon e il tamburello!!!”. Aí o papà pega um banquinho e um acordeon que tinha reservado para caso de picadas de aranha, e começa a tocar. A filha chora desesperada enquanto pula que nem uma louca com o tamburello pra espantar o veneno. E a italianada da fazenda pára de colher café e fica alí em volta “hey! hey! hey!”. O melhor é que essa tática sempre funcionava, porque as tarântulas não tem veneno…)

>> Essa é a Tarantella Napoletana, mais folclórica, toda coreografada, com as moças em trajes típicos e tamburellos. Coisa pra turista ver.

>> Tarantella calabresa de Aspromonte, em Reggio Calabria. Se dança que nem um louco, batendo os pés, e com as mãos e os braços pra cima, meio desengonçados…

A busca pela ‘canção mais italiana de todas’ levou a gente pelas óperas de Verdi (La Traviata), Puccini (Madame Butterfly) e Rossini (O Barbeiro de Sevilha), e mais um monte de Luciano Pavarotti e todas as musicas italianas pop’s melosas.

Mas eis que veio à mente da minha amiga uma cançao do Giorgio Gaber, um compositor ja falecido, que fala muito mais sobre o pais do que qualquer post nesse blog conseguiria falar. Está tudo aqui: o problema com os estrangeiros (extremamente atual, hoje em dia com os romenos…), a burocracia, a paixão pelo futebol, o fascismo, o peso do passado cultural…

(…)

Mi scusi Presidente / non sento un gran bisogno / dell’inno nazionale / di cui un po’ mi vergogno.
In quanto ai calciatori / non voglio giudicare / i nostri non lo sanno / o hanno più pudore.

Mi scusi Presidente / se arrivo all’impudenza / di dire che non sento / alcuna appartenenza.
E tranne Garibaldi / e altri eroi gloriosi / non vedo alcun motivo / per essere orgogliosi.

Mi scusi Presidente / ma ho in mente il fanatismo / delle camicie nere / al tempo del fascismo.
Da cui un bel giorno nacque / questa democrazia / che a farle i complimenti / ci vuole fantasia.

Questo bel Paese / pieno di poesia / ha tante pretese / ma nel nostro mondo occidentale / è la periferia.

Mi scusi Presidente / ma questo nostro Stato / che voi rappresentate / mi sembra un po’ sfasciato.
E’ anche troppo chiaro / agli occhi della gente / che tutto è calcolato / e non funziona niente.
Sarà che gli italiani / per lunga tradizione / son troppo appassionati / di ogni discussione.
Persino in parlamento / c’è un’aria incandescente / si scannano su tutto / e poi non cambia niente.

Mi scusi Presidente / dovete convenire / che i limiti che abbiamo / ce li dobbiamo dire.
Ma a parte il disfattismo / noi siamo quel che siamo / e abbiamo anche un passato / che non dimentichiamo.

Mi scusi Presidente / ma forse noi italiani / per gli altri siamo solo / spaghetti e mandolini.
Allora qui mi incazzo / son fiero e me ne vanto / gli sbatto sulla faccia / cos’è il Rinascimento.

Questo bel Paese / forse è poco saggio / ha le idee confuse / ma se fossi nato in altri luoghi / poteva andarmi peggio.

Mi scusi Presidente / ormai ne ho dette tante / c’è un’altra osservazione / che credo sia importante.
Rispetto agli stranieri / noi ci crediamo meno / ma forse abbiam capito / che il mondo è un teatrino.

Mi scusi Presidente / lo so che non gioite / se il grido “Italia, Italia” / c’è solo alle partite.
Ma un po’ per non morire / o forse un po’ per celia / abbiam fatto l’Europa / facciamo anche l’Italia.

Io non mi sento italiano / ma per fortuna o purtroppo lo sono.

Adds:

(gente, olha a versao do Pernalonga do Barbeiro de Sevilha aqui! hehe, inesquecivel!)

(conheci um italiano que tem um primo que ensina a tocar tarantella! Ele disse que quando ele estiver por aqui me leva pra um centro social onde se fazem as festas… hehehe, se eu for vai ter um post só pra isso!)

DJs Italianos

julho 8, 2008

Continuo na minha saga pra desmistificar a história de que toda música italiana é um ‘melodrama cornudo’.

Por acaso, esses dias, estava tentando me lembrar de alguns dos hits eletrônicos que tocavam no começo da faculdade, e me deparei com uma versão do Summer Jam mixada pelo Gigi D’Agostino.

“Poxa, esse nome parece bem italiano…” Algumas googladas depois, descubro que o cara realmente é, nascido em Torino. E não foi difícil achar a renca de DJs que a Itália exportou: Eiffel 65, Gabry Ponte, Molella…

Pois é, um a menos pra minha teoria. Ouvi muitos DJs italianos na adolescência e não sabia. Mordi a língua. Beh!

Agora, gente, olha isso aqui embaixo – da época que eu tinha que sair escondido pra ir pra baladeeenha! Passinhos na pista, topetinhos… putz… nostalgia total!

POP Italiano – Jovanotti

junho 19, 2008

Quando eu estava estudando italiano no Brasil, pra treinar um pouco a língua, baixei uma série de músicas da única cantora italiana que conhecia: Laura Pausini. Acabei decorando todas aquelas músicas estilinho “SandyJúnior” nas melosas versões originais. Chegando em Roma, me disseram que isso é música de exportação e que aqui as pessoas não amam Laura Pausini como os caras que escolhem as ‘trilhas internacionais’ das novelas da Globo.

E juntando meu conhecimento prévio (Laura Pausini) com as músicas que andei ouvindo nas rádios daqui, tenho a impressão de que toda música italiana fala de amores platônicos e melosos, ou de sofrimentos eternos…

Mas a partir de agora, me proponho a conhecer mais a música italiana e tentar mudar essa idéia. É a saga pra desmistificar a teoria dos ‘melodramas cornudos’.

Primeira tentativa: Il Barbone di San Giovanni

‘1º de maio da Piazza San Giovanni’, um show ao ar livre que é já tradição em Roma. Me lembro quando um barbudo entrou no palco, cantou “um monte de coisa de amor meio que misturado com rap” com uma voz meio rouca, e todo mundo cantou junto, delirando. Esse é o “Jovanotti”, um cantor bem respeitado aqui, principalmente porque tem uma carreira de vem desde o fim dos anos 80, mas nunca sai das paradas italianas.

Esse é o clipe de um grande hit, “Penso Positivo”, de 1993, época em que ele começou a incluir temas mais políticos e filosóficos (naquelas, claro) em suas letras e dar uma de Bono Vox (ajudando instituições, fazendo declarações pacifistas, se declarando vegetariano, etc…)

>> Duas coisas pra comentar sobre esse clipe. Um: até fazendo Rap, eles continuam fazendo música romântica. Dois: sonoramente não é a língua mais linda pra se cantar um Rap?

Na real, o esquema do Jovanotti é dar uma de Madonna – explorar novos caminhos em cada trabalho, pra “ir renovando”. Mas não adianta falar, da mesma forma que ele tem sempre um pezinho no Rap, ele sempre tem o outro pezinho no ‘melodrama cornudo’. Prova maior é essa música que ele fez pra sua filhinha, “A te”:

Bom gente, vou continuar procurando e postando meus achados interessantes.

E até agora, a teoria das músicas melosas tá dando certo…