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133: La riforma Gelmini

novembro 3, 2008

A Itália é um país de conservadores. A Itália definitivamente não é um Estado laico. A Itália reelegeu (de novo), agora em 2008, um cara que tem descarados acordos com a máfia, denúncias e denúncias de corrupção e apoio de partidos de extrema-direita (leia “fascistas”). Dono da Fininvest, do Império MediaSet, terceiro homem mais rico do país.

Era óbvio que muito mais merda estava por vir com esse governo, mas não imaginei que ousariam atingir tão descaradamente a educação.

As horas de estudo semanais das crianças vão cair quase pela metade. Um monte de professores será simplesmente chutado pra rua, sem esperanças de conseguir um novo emprego. Para o ensino fundamental, o retorno da figura do “professor único” (responsável por lecionar todas as matérias) com um só material didático. E o sistema de escolha desses professores não está claro para ninguém: duvido que seja totalmente meritocrático.

Notas de comportamento com o mesmo peso e importância das outras notas. E a noção italiana de comportamento está muito mais próxima da “submissão” do que da nossa noção moderninha de “aluno participativo e interessado”.

(Estavam querendo, inclusive, criar salas separadas para os estudantes estrangeiros, que “não tem um conhecimento mínimo necessário da língua italiana.” Parece que essa proposta não foi avante. Pelo menos. Ufa. Mas que tipo de governo chega ao menos a COGITAR isso?)

E as medidas específicas para os cortes nas Universidades serão evidenciadas em breve. Provavelmente, incluindo fundações privadas nas universidades públicas, despedindo professores, aumentando a taxa anual de inscrição dos alunos, etc. E, é claro, cortando drasticamente a verba para pesquisas.

Faculdades como a de Física estão paralisadas, em greve, ocupadas, etc etc etc… – afinal, quem se forma alí ou vira professor ou vira pesquisador. Ou seja, ta ferrado de qualquer forma.

A minha universidade, a principal de Roma, está pra ser paralisada. Alguns prédios já foram ocupados. Mas não sei onde isso vai dar, porque aqui ninguém na mídia vai querer ouví-los. Aqueles que o faziam já foram “excomungados” pelo Berlusca há muito tempo.

Particularmente, eu sou apaixonado por esse lugar, por esses prédios, por toda a história, pela cultura, pelas pessoas, pela comida, pela língua, pelos museus, pelos quadrinhos, pela música… mas como dizem meus amigos italianos: “sendo governado assim, QUEM QUER FICAR AQUI?” Os grandes jornalistas, os acadêmicos, artistas… o que fazem? Vão embora! Tá todo mundo planejando a viagem pra Londres, Madrid…

E mesmo com a mídia totalmente na mão do governo (pra quem não sabe: Na TV, a RAI é estatal e a MediaSet é do Berlusconi, enquanto todos os jornais impressos são subsidiados pelo governo) não teve como não escapar algumas “notícias-contra”. Não deu outra, o Berlusconi ameaçou publicamente os editores e diretores dos telejornais.

E embora aqui o povo seja bem alienado, o número de manifestações vem sendo ABSURDO. Como todas se reúnem numa praça que fica do lado de onde estou morando, dá pra ver que dessa vez o negócio é bem sério. Hoje em Roma, divulgaram que no total haviam cerca de 800.000 pessoas manifestando nas ruas (muuuuita gente pros padrões da cidade – quase 1/3 da população da Roma metropolitana). Mas ouvi muita gente alí dizer que tinha mais gente, que o número divulgado era baixo, que eles estavam batendo a casa do 1 milhão.

(É interessante ver até os colégios parando, e estudantes de 15 anos de idade passando os sábados nas ruas. Pra um moleque de 15 anos na Itália sair pra protestar… ta foda! Eles vão com um milk-shake do Mc’Donalds numa mão e óculos Dolce&Gabanna no rosto… mas vão, porque essa manifestação é bem maior do que um simples posicionamento político.)

Um amigo meu italiano que faz Ciências Políticas aqui, me fala sempre mais ou menos assim:

“Quando nós pegamos um livro pra estudar o levante dos regimes totalitários, principalmente os mais modernos, observamos que as mudanças são sempre sutis e seguem os mesmos passos. Pegamos essa lista de passos e fomos ‘ticando’ com base no que vem acontecendo na Itália: Figura carismática que se mantém no poder através da mudança das leis anteriores, feito… Censura, controle dos meios de comunicação, feito… Apelo à família, aos antigos valores, à moral, feito… Investimento nas forças militares e na sua atuação nas ruas, feito… Restrição e controle do sistema educacional, feito… Pois é, se continuarmos assim, estamos a poucos passos de uma coisa bem maior e ninguém percebeu isso…”

Torço muito pra essa lei reforçar a esquerda, pra que talvez nas próximas eleições alguma mudança aconteça.
Dói ver esse país imerso nesse tipo contexto político. Uma coisa é ser um país conservador, outra coisa é caminhar pra trás.

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Esposições de Roma

Manifestação de estudantes em frente ao Palácio das Exposições de Roma

Sobre viver em um país “ex-fascista”

julho 9, 2008

Quando cheguei em Roma, algumas pixações com um símbolo de um círculo com uma cruz ao centro me despertaram algum incômodo. Esse símbolo é normalmente associado aos movimentos de ‘orgulho branco‘ em todo o mundo. Mas aquilo era só uma amostra de tudo o que eu estava por ver.

Andando de ônibus um dia desses, cedi lugar pra uma velhinha que entrou. Ela começou a puxar papo, e conversamos até o ponto onde eu tinha que descer. “A Itália está uma bagunça agora. Por mim, queria o Mussolini de volta. Na época dele tinha escola, a saúde era boa e a cidade era linda”. Confirmei com a cabeça, dando aquele sorrisinho sem graça. Afinal, “esse pessoal mais velho é mais conservador mesmo. Deixa pra lá….”

Ouvi a mesma opinião de mais dois senhores em outras giradas de ônibus pela cidade e, pra minha surpresa, de um garçom em um restaurante – um cara com uns 25 anos. “Na época de Mussolini, a Itália era respeitada”.

Não discuti por muito tempo. Estou em território estrangeiro, e o meu poder de argumentação em italiano ainda não está bom o suficiente pra travar um debate político ácido assim. Talvez, pensei, “é uma coisa de momento, já que o país está mergulhado numa crise e as pessoas se sentem perdidas na hora de acreditar na política”… Afinal, um país que elege pela terceira vez um governante como Berlusconi – terceiro homem mais rico da Itália, dono da Fininvest, atualmente defensor de políticas fortes para barragem de estrangeiros, acusado de envolvimento com a máfia e partidos fascistas – deve estar bem confuso.

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Mas aos poucos fui percebendo que essas manifestações fascistas não eram apenas casos isolados. Na TV, a neta de Benito Mussolini, Alessandra Mussolini – ex-modelo da playboy e atriz – ia pessoalmente a programas de auditório para discursar sobre as iniciativas de um partido de extrema-direita, o Forza Nuova – claramente fascista, que defende, entre outras coisas, adoção de políticas claramente xenófobas, o fim do estado laico e a derrubada das leis que proíbem a política fascista assumida na Itália.

Dentre algumas das declarações públicas na TV de Alessandra Mussolini, ela soltou uma frase que se refere à homossexualidade e gerou uma polêmica enorme em todo o país: “Melhor ser fascista do que ser frouxo”.

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Roma Gay Pride 2008, começo de junho. O tema da parada: “melhor ser frouxo do que ser fascista”. 30 homens vestindo roupa social, fingindo que estavam indo pra um casamento, penetram a passeata e começam a disparar ofenças contra as pessoas que seguiam os carros de som. “Vamos esfaquear todos vocês!”, gritavam. Por sorte, a polícia já tinha sacado a tentativa e em minutos tirou o grupo de neo-fascistas do meio da multidão.

O que me espanta muito, é que não foram ‘dois adolescentes que atacaram alguém no meio da noite’. Eram 30 homens, no meio de uma manifestação coberta por toda a imprensa, nacional e internacional.

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Conversando com um italiano num bar, uma noite dessas, ele me contou uma história de quando estava andando com sua namorada por uma rua de uma cidade do norte do país, quando cruzou com 2 skinheads. Os caras mexeram com a namorada dele, e ele foi tirar satisfação. Depois de discutirem, foi parar no chão coberto de pontapés, enquanto a namorada chorava.

Dois policiais chegaram. Os skinheads pararam de chutar o cara e ergueram as mãos, fazendo a saudação fascista. Os policiais pediram pra abaixarem as mãos, mas eles fingiram não ouvir.

Com golpes de cacetete, os policiais tentaram por muito tempo baixar as mãos dos rapazes, que se mantinham firmes como estátuas. Tiveram que chamar reforço pra levá-los presos.

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Há algumas semanas atrás, perto da reitoria da Sapienza, principal universidade de Roma, um grupo de estudantes de extrema-direita se reuniu pra fazer uma manifestação. Se encontraram com um grupo de estudantes de esquerda, e tudo terminou em pancadaria e muita gente ferida.

Quem começou a briga, ninguém sabe. Mas o fato é que aqui realmente existem manifestações de estudantes de extrema-direita. É como pensar em estudantes da USP que apóiam a volta da ditadura militar se reunindo na Praça do Relógio.

A direita fascista aqui só não ‘existe’, como também é evidente, descarada, orgulhosa e influente.

Pesquisando um pouco, descobri que a manifestação era ligada à uma organização apoiada pela Forza Nuova, chamada Luta Estudantil. Vale a pena visitar o site deles e ver os flyers disponíveis para download, que incentiva uma ‘ação com as próprias mãos’ por parte dos estudantes.

Não sei se fico mais revoltado ou chocado com essa situação toda. Às vezes me parece que o fascismo aqui não é apenas ‘um resquício de algo que aconteceu’, mas sim uma ideologia que convive e conviverá com a sociedade.

Estar aqui no meio e perceber que todo mundo sabe que isso existe é muito estranho. A nossa extrema-direita é um gatinho manso perto da extrema-direita européia.

(Olha que interessante: leiam com atenção a descrição de Alessandra Mussolini na página na Wikipedia em inglês…)