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Frascati, cidade do vinho

julho 26, 2008

Sábado à tarde, nada pra fazer, e aquele calorzão de verão italiano. Depois de girar por 5 meses dentro de Roma, o melhor a fazer é escapar pra outra cidade – já que tudo aqui é muito bem ligado por trens. Em meia hora se chega na praia, em quarenta minutos se visita a região de lagos onde fica o Castelo Gandolfo (a casa de verão do Papa), ou mesmo algumas cidadezinhas dessa região central da Itália.

Hoje, visitei uma cidade pequeninha, no alto das montanhas ao redor de Roma, numa altitude suficiente pra se ver toda a capital italiana. Frascati é considerada o centro dos “Castelli Romani”, uma área muito importante por causa dos seus vinhos.

Uma paz imensa, igrejas, ruinhas estreitas e gente discutindo por qualquer coisa nas ruas. Conhecemos o centro em menos de uma hora e fomos para o que interessa: comer e beber.

Depois de procurar um bom tempo por um lugar pra sentar, descobrimos que o que o povo faz ali é comprar a ‘porchetta’ (carne de porco assada) no mercado de rua e ir até um ‘fraschete’, uma cantina onde se sentam pra comer e encher a cara com vinhos maravilhosos.

Foi numa cantina dessas que bebi o melhor vinho branco da minha vida! Sem taça, sem garçom servindo pra degustação, sem frescura nenhuma. O vinho não tinha nem nome – o tiozinho da cantina falou que era feito em Frascati e encheu a garrafa com a bebida fresquinha, antes reservada no barril que estava atrás do balcão.

>> Não teve como não lembrar do meu pai. Queria muito que ele estivesse alí, hehe

Nos sentamos alí, pedimos o vinho branco, e comemos a porcheta que tínhamos comprado no mercado de rua, achando muito estranho essa coisa de ‘comprar ali e comer aqui’ – em São Paulo não nos deixariam fazer isso nunca! Mas vimos que os italianos chegavam com comida de fora, se sentavam dentro da cantina e pediam um vinho pra acompanhar.

Isso é uma coisa que eu gosto muito na Itália: cada lojinha na rua é especializada em uma coisa, oferecem só um tipo de produto e o fazem muito bem, há anos, há gerações, sem aquela concorrência estúpida. Não existe a vontade de querer sugar o máximo do cliente, fazendo ele comprar outras tantas coisas.

Quando você quer fazer compras, vai ao centro da cidade e anda pelas ruas, entrando de lojinha em lojinha – nada de shopping center ou megaboulangeries. Se você quer um bom pão italiano, vai à paniteria do fulano. Se quer frios baratos e de qualidade, vai à salumeria do cicrano. Se quer lanchinhos, paninoteca da esquina. Se quer cigarros, tabacaio da vizinha. Se quer se esbaldar com doces, à pasticceria da família tal.

Dizem que a Itália parou no tempo, que as pessoas têm a mesma mentalidade de séculos atrás.

Ainda bem. Aqui, os negócios parecem ter uma coisa que as grandes redes perderam: a humanidade.

Dublin

julho 5, 2008

Em maio, fui fazer uma visita pra uma amiga que mora em Dublin e aproveitar um pouco minha estadia aqui nas Zoropa. Sempre tive vontade de conhecer Dublin – me diziam ser um lugar com alma de Inglaterra e cara de cidade do interior. E digamos que, na Irlanda, os latinos são muito mais bem-vindos do que em Londres.

Visitei muitos pubs, todas as noites, e obviamente fiz o roteiro turístico básico da cidade. Mas são em momentos específicos, fora dessa rotina de turista, que se aprende mais sobre o local do que qualquer descrição de guia.

Andando sozinho (e meio que perdido) pelas ruas, numa tarde com um sol simpático dando as caras, achei sem querer a Saint Patrick’s Cathedral. E lá estava a igreja do santo mais famoso da Irlanda ao lado de um parque extremamente cheio de vida: crianças brincando com os pais, gente lendo, tirando uma sonequinha ou mesmo só batendo um papinho na grama, em plenas 4 horas da tarde. Sentei também, tirei a mochila das costas e guardei o mapa. Fiquei ali um bom tempo, conversei com algumas senhoras, observei as pessoas e curti o sol que começava a trazer a vida de volta pra cidade. Esse tipo de cidade européia oscila entre o depressivo inverno, gelado e escuro, quando anoitece às 3 da tarde, e a vida que a primavera traz pras pessoas e pra paisagem sempre tranquila.

Nem mesmo no horário de pico os ônibus estão lotados. Eles nem precisam de metrô, porque o trânsito praticamente não existe e os outros sistemas de transporte funcionam muito bem. A cidade é plana, por ser litorânea, e totalmente planejada. Dá pra voltar de biclicleta pra casa, a qualquer horário, mesmo morando na periferia da periferia – que não é tão diferente das regiões mais nobres, tendo em vista que o país é composto por uma vasta classe média.

Foi ali que eu entendi a pegada de Dublin: uma cidade calma, organizada, pacífica. E realmente com aquele ar de cidade do interior. Mas com um povo forte, bravo e orgulhoso, com uma alma bem diferente da alma inglesa.

Com uma história de muitas batalhas, parece que hoje o país atingiu aquilo que sempre lutou pra conquistar: independência política, uma democracia que funciona e prosperidade econômica – embora o norte, pertencente ao Reino Unido, ainda sofra com esse tipo de briga, atentandos do IRA, etc.

>> no caminho para Howth Cliffs

O país é extremamente católico (e olha que eu digo isso mesmo morando em Roma!), até porque a religião virou uma afirmação cultural defronte os protestantes ingleses. E ainda bem que eles também falam inglês, pois o irlandês não lembra nada que conhecemos, uma vez que a raíz é céltica e não anglo-saxã.

E quando se pensa em Irlanda, se pensa em U2. Mas não foram só eles que o país mostrou pro mundo. Na música contemporânea, entre muitas outras bandas, ainda tem The Corrs (que eu adoro), Cranberries e Enya (minha frustração foi não ter ido visitá-la em seu castelo, cantando na sua torre, diva céltica total, louca…). Visitei também um festival muito interessante de teatro, que é uma coisa forte na cidade. Afinal, eles também geraram gente como George Bernard Shaw, Samuel Beckett e Oscar Wilde (visitei a casa deste último, mas não tinha nada demais…). Ah, e também é onde nasceu o James Joyce, que eu tinha acabado de estudar aqui na Universidade de Roma.

>> estátua de James Joyce.

Impressões

As pessoas são bonitas mesmo que não se cuidem tanto como na Itália. E os irlandeses que bebem de verdade: litros de cerveja até cair no chão, seja homem ou mulher. Roots! Raça viking, mermão!

O inverno e as chuvas frequentes deixam algumas épocas extremamente depressivas – por isso que os pricipais problemas de Dublin estão ligados ao alcoolismo e à taxa de suicídios. Fora isso, tudo é extremamente organizado e desenvolvido. De umas décadas pra cá, eles atraíram muitas empresas internacionais, principalmente de tecnologia, e se tornaram um “tigre céltico” da economia.

Nos pubs, as pessoas não saem só com os amigos da mesma idade, mas também com a família. Até mesmo as famosas despedidas de solteiros das meninas são eventos pra toda a família. Como diria o Pawel, o polonês que me hospedou, “oh gosh, this is so irish…”

>> eu e Nani em um dos Pubs da Temple Bar

Cores

As casas e o céu estavam sempre acinzentados, pois as casas são de pedra sem reboque e o tempo está sempre fechado. Os gramados e árvores eram extremamente verdes, por causa da chuva abundante. E as pessoas, rostos e cabelos avermelhados. Se rolasse um solzinho então, a cidade ficava cheia de pontinhos vermelho-pimentão.

>> Dublin doors

>> fachadas típicas, de madeira. As pretas e douradas são minhas preferidas.

Valeu a pena:

  • Visitar a Trinity College, que é uma universidade de uns 500 anos e muito linda, com um clima muito tranquilo. Lá dentro tinha uma biblioteca que me deixou maluco.
  • Passar um dia no porto e na costa em Howth, pra ter uma noção da beleza natural do país e comer coisinhas que vinham diretamente das fazendas irlandesas.
  • Tomar uma pint vendo a cidade do alto no observatório da fábrica da Guiness.
  • Relaxar nos jardins e andar pela cidade sem compromisso, conversar com as pessoas e ver como os irlandeses podem ser extremamente simpáticos.
  • E, principalmente, andar de pub em pub pelo Temple Bar e perceber como os irlandeses podem ser extremamente ogros quando bebem, hehe

>> tiozinho do porto de Howth, que fica sentado no banquinho pra conhecer pessoas e contar histórias. Total Forrest Gump.

>> pegando uma pint de guiness no observatório da fábrica.

>> jardim do Dublin Castle. Sempre com crianças, gente lendo, tirando uma soneca ou só batendo um papinho e curtindo a tranquilidade da cidade.

>> perdido, porque todas as casas eram iguais e eu não lembrava o número da minha…

Mais fotos de Dublin no meu flickr.